Ontem, depois de concluídos meus afazeres estudantis, voltei pra casa à noite, e os meus companheiros de república não estavam todos presentes. Ítalo dormia, Geléia via TV e Leandro e Márcio estavam ainda em aula. Foi quando liguei para minha mãe, em Jundiaí, para contar-lhe da viagem a Brasília que havia feito no dia anterior. Durante minha chamada pelo celular, o telefone fixo da república tocou, e o Geléia atendeu. Era o Leandro, pedindo pra falar com o Ítalo (Julgou que Geléia era muito “mocinha” para a missão que demandava auxílio). Depois que este atendeu, só ouvi as palavras mais enfáticas: “Quê?” ”Cobra?” “Caralho!”… Eu ainda falava com a minha mãe no meu quarto, então me equivoquei no raciocínio.
Notei que houve uma movimentação espalhafatosa dos dois que falaram com o Leandro, e tudo o que passou pela minha mente foi “Nossa, acho que uma cobra atacou o Leandro e ele está chamando por socorro… TENHO QUE IR AJUDAR!!”. Despedi-me da minha mãe, e corri ajudar os dois no resgate e no abate da cobra, pois, no caso de ser venenosa, há a necessidade de levá-la ao hospital junto da vítima, com a finalidade de descobrirem qual era o antídoto específico para o tipo de peçonha. Quando cheguei ao local do provável ataque, que era na esquina ao lado do prédio onde moro, vi Leandro, Geléia e Ítalo brandindo um rodo, uma cobra estufada de areia, dessas de pôr no sopé da porta para evitar que batam com o vento, e tijolos, prontos para massacrar a cobra coral que até então nada tinha feito contra nenhum dos três e estava quieta na calçada. Eles hesitavam e indagavam-se sobre quem seria o autor da primeira investida contra a coral cujo único erro foi sair de seu lar e deixar-se ver publicamente. Geléia pegou um tijolo baiano que lá estava, postou-se do outro lado da cobra, mais próximo da região cefálica, e atirou o tijolo, que se quebrou ao atingi-la no meio do dorso, enquanto um pedaço grande e pesado desse tijolo, que permanecera intacto, tombou em cima e impediu-a de fugir. Eu não apoiei em momento algum essa atitude de meus companheiros; pelo contrário, sugeri que chamassem os bombeiros para que recolhessem o animal e dessem-lhe o destino mais apropriado. Após a tijolada, leandro veio com o rodo para tentar esmagar-lhe a cabeça, e após o primeiro golpe, que não foi certeiro, a cobra percebeu o que acontecia e tentou fugir, então percebi que apenas a parte anterior ao ponto onde o tijolo acertara se movimentava desesperadamente para a fuga. Geléia lhe quebrara a coluna. Tentando fugir com a parcela de seu corpo que ainda podia se mover, ela tentava alcançar o pequeno muro de blocos que antes havia transposto, mas que agora não conseguia devido ao golpe com o tijolo e ao obstáculo que o peso deste em seu dorso lhe impunha. Leandro investiu mais algumas vezes, e cada vez que acertava, melhor calculava o próximo golpe, acertando sempre na cabeça. Quebrou o rodo com os mais de trinta golpes que desferiu contra o encéfalo já inconsciente do bicho, já bem indefeso.
Tudo isso me fez lembrar de quando uma vez tirava o carro da garagem da empresa em que meu pai trabalha. Vi na frente do portão uma mãe e seus dois filhos ainda abaixo dos 10 anos de idade, aparentemente bem pobres, que observavam uma pequena cobra que de tão pequena era facilmente esmagável mesmo com um pé calçado de criança. Era de um tipo não tão incomum naquele local. A mãe dizia a um deles “Mata!”, e o outro desobedecia “Não mata, não!”… E achei fantástica a consciência ambiental que as duas crianças demonstraram naquela situação. Consciência que nem a própria mãe detinha, e que, ontem, nem mesmo meus companheiros de república, estudantes universitários, provaram ter.
Escrito por Luís Renato 
Escrito por Luís Renato 
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